Vínculos

Habitar uma paisagem. Remontar o lugar com memórias de outras memórias. E tornar envolto, acolhido, um tempo mais antigo, que não apenas aquele de nesgas lembranças. De que são feitas as histórias da paisagem? Intangível, como o vento que se esvai sobre os mares, o tempo pontua a vida, em subidas e descidas, frenesis de histórias, vales de silêncios e gritos de emoção. É como convida a sentir a linguagem poética da artista Pola Fernandez, em sua série de imagens em grande formato enlaçadas em histórias de vínculos. Cada uma, um vale de tempos, de recordos e de suspiros.
 
O conjunto de obras da série Vínculos atina para uma relação íntima entre a existência e a paisagem. Vínculos de um duplo feminino – a mulher e a paisagem – delicadamente alinhavados pelas linhas de um bordado de pontas soltas. Pola Fernandez aglutina, nesta série, retratos de mulheres afrodescendentes e paisagens atemporais, quase oníricas. Fotografiascriteriosamente bordadas para serem vistas de frente e também pelo seu
verso. Um motim silencioso do ver e re-ver. Religações entre pontos e nós daquelas mulheres, conectadas a um outro lugar e a um outro tempo.
Com sua liberdade poética, a artista desloca os retratos dessas mulheres do lugar onde estavam, no momento do registro fotográfico, para os encantos de outras paisagens. E assim, vai criando vínculos. Entre fotografia e bordado, entre retrato e paisagem, fios nascidos das mãos de Pola Fernandez ligam mulher e pedra; mulher e água; mulher e terra; mulher e natureza. Para ela, as obras são um exercício profundo de encadeamento entre a artista e as mulheres retratadas, mas também a essas paisagens de memórias que passam a ser habitadas por elas.
Vínculos é a sobrelevação do trabalho de Pola Fernandez iniciado em Atavos em 2010, quando começara este bem sucedido projeto. Uma pesquisa artística legitimada pela parceria e diálogo da artista com o grupo de mulheres afrodescendentes de Salto, o NYOTAS. A artista retratou em um estúdio fotográfico, montado especialmente para o projeto, as mulheres da cidade, em conexão com retratos históricos de escravas do século 19 numa espécie de reconstrução de ligações.

E agora, em Vínculos, insiste nesta constelação ancestral e nesta captura simbiótica dos retratos, ampliando esse olhar para o lugar cósmico da paisagem. Um pacto sobre o lugar. De onde se remontam memórias, insumo para bordar o tempo de linhas e vestígios que nos apreendem em camadas e elos de uma mistura alquímica esparramada por entre o não- visto.

Fabiana Bruno


Atavos

Ancestralidade carrega-se no corpo.
Uma marca, que remonta temporalidades, e torna visível gestos imemoriais.
É em última instância uma forma que se expressa por imagem.
Uma imagem ancestral.
Corpo imagem.

Atavos, o título deste projeto fotográfico, é uma aproximação à palavra que vem do latim atavus e ao termo atavismo.
Uma tentativa bem sucedida da fotógrafa Pola Fernandez de levar a cabo uma investigação visual de como a ancestralidade pode se fazer ver.
Ao montar um estúdio fotográfico para capturar, por meio da tradição do retrato, atitudes ancestrais de mulheres africanas descendentes, a fotógrafa desmonta e remonta retratos históricos.
Reproduzindo retratos antigos de escravos em grande formato, Pola torna essas fotos do passado um tipo de “imagem oferenda” às mulheres retratadas em seu projeto, que ao serem fotografadas, entram simbiose com a “imagem ancestral” escolhida por elas. A desmontagem de passados.
Conexão e reconexão no mesmo instante. Uma remontagem de um retrato de ligação, uma re-construção, ainda que imaginativa, de uma ausente árvore genealógica em direção ao futuro dessa ancestralidade.

Fabiana Bruno